quarta-feira, 2 de abril de 2008

Rua Maria Teresa Vieira

A mais recente boa notícia é que além de dar seu nome a um Centro de Arte e a um abrigo (CEMASI) de idosos na Praça da Bandeira, Maria Teresa Vieira agora também é nome de rua. Fica na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, entre a Estrada Chagas Freitas e a Av. do Magistério. Agradecemos ao Prefeito César Maia por esta iniciativa, um reconhecimento justo a uma grande artista e educadora.

Aproveitamos para deixar aqui mais um techo do seu livro "Passagens":

"...As casas para mim eram pessoas. Por isso, eu senti muito as perdas de algumas pessoas, e senti também as perdas das casas. Mas agora, sei que não foram perdas, foram passagens. Ninguém perde ninguém. Ninguém perde casa. São passagens. São as passagens das coisas. E hoje, eu me vejo num lugar, ao qual foi dado a pessoa que lutou para ter, e que construiu esta casa – onde o espaço é da prefeitura e a casa é minha.
Nós somos co-autoras desta casa. A prefeitura e eu. Nós somos as donas da casa. Vou tratá-la carinhosamente, porque ela é do município. É uma casa que o município toma conta. Ele deu para mim, e eu dei para ele. É uma casa que eu tenho que ter o maior cuidado para ninguém bulir, para ninguém interferir, para ninguém prejudicar. Eu sou guardiã desta casa da Rua da Carioca, 85; e como guardiã, só deixo entrar aqui dentro, arte, arte-educação e a vida. Nada vai destruir, nem prejudicar. Porque os meus amigos fizeram essa dádiva de tijolos, de construção, para que eu cuidasse dela.
Quem ficar que continue esse ritmo. Desenvolvendo. Nada vai prejudicar essa casa e o seu mecanismo. A arte-educação, a parte de pintura, uma pequena biblioteca, escultura e gravura futuramente. Mosaico, xilogravura, que é mais leve. É uma coisa íntima. Um pouco de serigrafia. Tudo com parcimônia. Um pouco de teatro, literatura da palavra. Um pouco de pesquisa de cor, de forma, de textura, de poesia e música. Tudo relacionado. Eu acho que é isso mesmo. (p.110)
E agora, eu tenho que tratar bem do tempo que falta, que vai ser algum .............. Pode ser mais trinta anos, pode ser vinte, pode ser até dez anos, até penso que pode ser cinco, ou dois, ou um, ou zero. O tempo que eu ficar, eu tenho que trabalhar com muita intensidade, com muita verdade. Continuar trabalhando. E não esquecer que eu não sou só professora. Eu sou artista plástica. Eu tenho que vivenciar o processo criador, para poder dar uma boa aula. Eu tenho que continuar meus quadros.
O que foi doado para o uso pode crescer e se tornar uma fundação. Acho que merecemos. A minha vida pode continuar e a lembrança dos que materializaram este sonho, que se tornou também uma realidade para a comunidade.
Obrigada Marcelo Alencar, acreditaste em mim e como prefeito autorizou essa realização.
Aqui estou, 5 horas da manhã em minha prancheta preparando aulas, desenhando, fazendo poesia e na escuta sendo guarda deste nosso tesouro. Minha solidão está povoada. Obrigada César Maia por acreditar em mim por mais dez anos.
Maria Teresa Vieira. 1996."

segunda-feira, 24 de março de 2008

MINHA VIDA – ARTE-EDUCAÇÃO

MINHA VIDA – ARTE-EDUCAÇÃO

(trecho do livro de memórias "Passagens" de Maria Teresa Vieira)

A ausência:
A presença na ausência alimenta. E quando nos damos por inteiro, a marca da ausência fica na presença. Eu tenho observado o seguinte em matéria de arte-educação: por que é que eu entrei nessa história ?
O artista e o educador tem um compromisso e uma necessidade de orientar. Não somente o artista orientar, mas inclusive, ser orientado.
O educador era a necessidade, que eu sentia de completar as lacunas da infância. E o respeito de não ficar com as coisas só para mim.
É como se eu precisasse dar sempre ao outro através da arte. Eu acreditava realmente nisso. E até agora eu acredito que através da arte o homem pode se encontrar. É como se ele conhecendo o material, possa conhecer a si mesmo. Ele traçando a linha, está traçando a sua linha. E no continuar, ele vai resolvendo, dando soluções para suas coisas.
Eu sempre achei interessante dizer:
- Quando eu ficar bem, eu venho ter aula de pintura.
Mas justamente, eu achava que a pessoa iria ficar bem, tendo primeiro a aula de pintura, de teatro, de música. Aula para colocar sua criação em movimento, e organizar sua impetuosidade. Canalizando. Ter um ambiente onde propiciar-se o colocar para fora. Dentro desse ambiente iam surgindo situações. E dentro do surgir era como se o homem tivesse uma oferenda para dar à humanidade. Essa oferenda era materializada em atitudes. Quando a pessoa escolhe verbalizar essa oferenda, em forma de literatura, está sempre dando, está sempre militando.
Mas, há pessoas que fazem isso na atitude humana. O dar de cada dia. O viver constante. Organizar para dar à humanidade.
O artista dentro de sua arte, se organiza, O educador seria canalizar essa emoção, organizar essa emoção que cada um traz. Organizar o caótico. Estou me lembrando do meu amigo Willy.
É muito importante ver o caótico de cada um de nós. Ver surgir e depois organizar. Essa organização só vem da continuidade.
E se alguém vem sem saber como organizar as emoções, os gritos, os movimentos? O diretor deverá organizar os gritos. Organizar o caótico é tarefa do diretor, do educador, do professor, do estadista, da dona de casa, do presidente de uma organização.
As consequências do caótico, a continuação do mesmo, só darão dúvidas para o próprio caótico.
É como os altos e baixos de uma música: movimentos fortes e movimentos tranquilos, agudos e graves. Se não, haveria uma angústia muito grande, sem resultado.
É importante a educação do caótico e a presença do mesmo.
Este é o momento de dizer que educar é ajudar, é canalizar.
Mas, para educar, eu tive que me educar, o que não foi muito fácil dentro da educação desordenada de um nordestino. Tive que por em ordem as minhas gavetas desarrumadas. E até ser durona. Em alguns momentos até ser severa. Ser dura até comigo, e com os outros. Eu descobri que às vezes é necessário ser dura, para poder ser flexível em algumas horas. O dar não para dar sim. E ter conhecimento de alguns momentos do outro, de informação do outro, mas de maneira nenhuma ficar de antolhos, querendo aplicar os ensinamentos só de uns, sem ouvir o ensinamento do seu coração.
O educador não deve ser só educador. Ele tem que ser criador. Se ele não criar alguma coisa, ele não vai conseguir saber como passar adiante. Ele tem que resolver o ato da sua própria criação.
Tem o educador que é artista. E tem artista que é educador, e sente necessidade de passar para o outro, não somente a sua técnica, mas passar o sentimento da criação, em todos os minutos, não somente no trabalho que está sendo feito.
O professor deve ter um espírito aberto, e o aluno também, para saber quando vai existir outra aula, sem ser aquela que o aluno está assistindo. Mas, o professor tem que saber quando é que o aluno deverá ter outras informações com outro colega. Ele não deve ser vaidoso para reter o aluno um tempo maior do que o necessário.
O aluno sentirá que está sendo amado, respeitado, e poderá profissionalizar aquilo que está aprendendo, embora seja um trabalho quase como lazer, como um alegria.
Mas, e aquela sensação de carregar pedra, que entrou dentro da humanidade ?
Se não carregamos pedra, pensamos que a coisa não é séria. Dentro da formação que tivemos, a arte será muito forte, quase difícil e triste. É um conceito que temos que pensar e transformar.
Por que a arte não pode ser feliz, prazerosa e lúdica ? Por que a tristeza não pode estar conosco? Por que tem que ser só alegria? Por que lutar pela conquista não pode fazer parte do processo? A dor não faz parte do processo da vida?
E o aluno compreenderá que é uma coisa maravilhosa, a pesquisa constante, a procura, o brinquedo, o sério, o lúdico, o exigente, o suave.
É fundamental numa oficina propiciar ao aluno, esses momentos de busca. Quem é que tem tempo de saber o que quer ? tem que ter um lugar onde a pessoa experimente. Faça experimentos, erre. Faça experimentos, erre.